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PORTUGUÊS CORRETO

Para não ancorar natimorto
o português correto, de mesóclises e bigode torto
foi salvo pelo Congo.
Pelo jongo.
Pelo bongô.
Chacoalhado nas maracas way way,
raspado que nem kaiabi
pintado como krahô.


Foi lavado por Iemanjá
saudado por Uirapuru
amigado de Jurupari
guiado por pai Olocum

O gajo da viola
(cuja mãe nasceu em Angola)
levou fartos fados do avô
mas umbigando na senzala foi que achou sua fulô.
E num carimbó astuto,
o violeiro entoou:
- Mameluco matuto
confuso cafuzo que sou!

Dizem que com Letras escreve-se o português correto.
Dizqui.
Mas o corpo escreve com cores e ações, não vê?
do cocar ao pé,
a dança do jacamí
e a saia borari
colorida pro Çairé

Português correto,
deixa de heresias!
Com ou sem conjugação
tu nasceu na poesia!
Tu nasceu em mar aberto
e é bisneto de cinco séculos
de africanos da Bahia!

Irmão caçula e mimado do quimbombo, do kaxiri e vinho do porto
Muitas mandingas e encantados da mata pra tu não ancorar natimorto

Fato é que –
não se ofenda,
ainda precisamos da trema para transfusões sangüíneas bem realizadas,
mas descartamos plurais de nariz em pé, glamour e campanhas eleitorais.

Nós quer contar estória e ser alfabetizado.
Ler e ser escutado.

De acordo com suas leis, português,
só você que tem Estado!
E se aqui não temos reis
temos muitos cacicados!
Muita liderança preta
que não conhece a sua letra,
sendo mais que respeitado.

E ademais? – Ora, seu abusado!
mansas, ganas, obás;
Raonis, hotxuás, icambiaras, Zumbis.
Tuíra, Lélia Gonzalez, Clementina de Jesus!
Horas de orações nas melodias do Luiz.

E não chame minha mãe de omissa
ou a rede de preguiça,
tal qual teu tataravô,
ler e escrever
não é problema não sinhô!
Na revolta imalê
imagine então você
como nós se organizou


Nas UF Casa Grande
só se forma que lutou:
Evaristo, Daniel...
são poucos mas são doutor!
Já toda brincadeira em roda
Capoeira, coco ou corda
Saúda cada makota
Ressuscita pai griô


Agora, pra te acalentar, português correto,
pois não quero que te assuste,
tu és parte da família, pa
e isso não se discute.
Tu trouxeste os portos, poemas,
azulejos de Beirute.
Tu trouxeste o cavaquinho, que com samba se confunde!

Como podes ver,
ninguém quer mal a você


Por isso, sente,

dê um trago e me escute:
Pare um pouco de escrever;

Aprenda nossos truques,
cantos, danças e batuques
pra você sobreviver.
........................................
Esse poema é brasileiro
escrito no velho mundo,
recitado em guarani,
traduzido em ovimbundo

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